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  • Eduardo Rosal

MINHA PRIMEIRA LEMBRANÇA

[30.04.20]



Levei muitas horas tentando recuperar a primeira lembrança que tenho na vida. Já fizeram esse exercício de resgatar sua lembrança mais antiga? Há quem tenha essa resposta na ponta da língua e até ache banal o que me proponho, de tão óbvio. Mas para mim, confesso, é estranha a sensação de buscar minha mais longínqua imagem/cena, porque é como se eu não pudesse confirmar, por mim mesmo, que estive presente em minha própria história inicial.

Sabemos que, em geral, só conseguimos lembrar o que nos acontece lá por volta dos três anos de idade, enquanto nossos primeiros anos de vida adormecem no esquecimento. Só nos resta, então, acreditar no que nos contam sobre nossa primeira infância. Acontece que isso que nos contam muitas vezes se embaralha em nós, a tal ponto de nos apropriarmos dessa história como se lembrássemos dela. Ledo engano.

E vocês sabiam que essa expressão “ledo engano”, em sua origem latina, quer dizer “engano alegre”, ou seja, um engano não intencional, sem gravidade. Pois bem, trata-se então de um engano bonito, porque nossa história é também o que outras pessoas percebem e guardam de nós mesmos. De todo modo, alguns dizem se lembrar com toda a clareza de fatos ocorridos quando tinham um ou dois anos de idade. Acho espantoso.

Na verdade, com relação à lembrança mais remota que consegui acessar, não sei quantos anos eu tinha. Posso até supor, porque eu era uma criança de colo e porque algumas informações que tenho me dão certas pistas para uma hipótese plausível. E há também alguma possibilidade de confirmar com meus pais, mas gosto da ideia de deixar essa imagem pairando incerta na minha memória. Além do mais, sou um escritor cuja matéria-prima é essa miscelânea de fatos e imaginações. Aliás, convenhamos, certas imaginações são bem melhores que a realidade, além do fato de que, filosoficamente, aquilo que imaginamos também compõe a nossa realidade. Com alguém, escritor ou não, é diferente?

A literatura (muito antes da neurociência) sempre trabalhou a relação intrínseca entre memória e imaginação ‒ isso que inconscientemente nos faz misturar aos fatos reais umas boas pitadas de fatos imaginados, inventados. Assim, quem confia 100% na veracidade da própria memória, está fadado ao nosso querido “ledo engano”. Com que frequência não nos acontece de relembrar com um amigo, por exemplo, alguma experiência que vivemos juntos, mas as lembranças de ambos em muitos pontos não coincidirem?

Enfim, vamos ao que prometi: a minha primeira lembrança na vida foi uma visita à casa do meu avô paterno. Como disse acima, eu era uma criança de colo, e era meu pai quem me carregava, se não me engana a memória. A casa era muito humilde. Lembro-me apenas de dois cômodos, com o teto muito baixo, de tal maneira que era necessário abaixar um pouco para passar pela porta de entrada. A cena que me ocorre é breve, talvez não chegue a durar um minuto. Mas quanta emoção.

O que me comove é saber que essa é a única imagem que tenho do meu avô em vida. Ele faleceu pouco tempo depois. Nunca mais o vi, mas quanto mais eu ia crescendo, mais os familiares e os amigos da família constatavam, abismados, minhas semelhanças com meu avô, desde o gestual, passando pelo gosto musical e a escrita literária, até a coincidência-mor: exatamente no dia em que eu nasci (23 de dezembro), meu avô fazia aniversário. Viemos ao mundo na mesmíssima data, não nos bastassem todas as outras semelhanças. A vida é mesmo um somatório de mistérios.

Mas o resto dessa história fica para a próxima crônica.

Eduardo Rosal



Fonte: https://www.facebook.com/Eduardo-Rosal-Escritor-108720470759417/

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