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  • Eduardo Rosal

PROFISSÃO: ESCRITOR



Demorei muito tempo para conseguir afirmar com tranquilidade que, além de professor, sou escritor. Os motivos são vários e longos. Não vou incomodar o(a) leitor(a) com isso. A questão é que sempre que eu precisava preencher um formulário ou quando era perguntado, respondia sem titubear “sou professor”, embora minha dedicação à escrita tenha vindo muito antes da aventura quixotesca do magistério.


No início, quando eu dizia que era professor as pessoas ficavam espantadas. Eu aparentava ser mais novo do que de fato era, então estava mais para aluno do que professor. Até hoje, quando entro pela primeira vez em uma turma, costumo ser confundido com um aluno. É o meu instante de glória.


Eu realmente comecei a dar aula bem jovem, por volta dos dezenove anos, o que de certa forma explicava o fato de acharem que eu era um aluno. Além disso, sou imberbe. Essa palavra estranha, quase um xingamento, designa aqueles que não possuem barba. E eu sempre justifiquei essa ausência de barba com minha descendência indígena (da qual muito me orgulho). “Já viram índio barbudo?”, eu dizia, para fazer graça. A piada funcionava, o que não sei se funciona é essa teoria torta. Mas em tempos de teorias tão mais infundadas que a minha, a piada do índio hipster até que ganha um brilhozinho de leveza.


Geralmente, depois da resposta “sou professor” vinha mais uma pergunta: “e você dá aula de quê?”. Eu respondia: “de português, literatura e redação”. Então o espanto aumentava, seguido agora da frase: “nossa, mas tão novinho”. Preferi sempre encarar tudo isso como um elogio. Quem tem esperança tem tudo.


O tempo passou, e a barba nunca cresceu, afora um ou outro fio solitário que despontava em meio a um deserto de pele, um rascunho de penugem como se riscado a lápis, um terreno epidérmico de solitários fios de barba. Escreveu Saramago: “a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz”. Mas no caso da minha barba, a solidão é mesmo a distância entre uma penugem e outra.


Enfim, não veio a barba que me tiraria da eterna juventude, como consequência a frase “nossa, mas tão novinho” continuou a me acompanhar, sob o olhar enviesado de Cronos (do grego Krónos), o deus dos cronistas. Os anos foram passando e, nesse meio-tempo, resistindo às dificuldades de uma origem socialmente humilde, fiz um mestrado, depois um doutorado com um período em uma universidade francesa, passei a trabalhar (para além da sala de aula) em outras áreas designadas aos profissionais de letras, publiquei livro, ganhei prêmios etc.


Depois desse longo percurso, o espanto da resposta “sou professor” ganhou novos ares e novos sustos, porque hoje as pessoas não conseguem crer como alguém com “tanto estudo” continua a ser um mero professor. É claro que nisso tudo fica implícito o conhecimento comum da média salarial de um professor no Brasil. Mas mudemos de assunto para evitar lágrimas que entreguem o triste saldo da minha conta bancária.


Hoje quando digo que sou professor costumo receber olhares de compaixão, como se tentassem esconder certo desapontamento, como se silenciassem a sentença: “tanto estudo para acabar assim”. Mas o fato é que, como disse na primeira linha desta crônica, de uns tempos para cá passei a me apresentar também como escritor.


Isso revelou algo interessante na maneira como sinto que as pessoas me veem hoje. A simples troca de uma palavra (de “professor” para “escritor”) parece nos colocar em posições sociais bem diferentes. Mas não é esse o motivo que me tem feito assinar com orgulho nos formulários da vida… profissão: escritor.


Peço que o(a) leitor(a) não se zangue. Sei que expus mais a história tragicômica da minha vida como professor imberbe. Os detalhes do meu lado escritor ficam para a próxima crônica. Prometo.

Eduardo Rosal


Fonte: https://www.facebook.com/eduardorosalescritor/?__tn__=kC-R&eid=ARAM2VDXTT7Zx7WhZjlNj_UygTEg7WZNsQ1pzcSpUBNJ4EOau93BB89r4946i0ycoxlsU1zkXPOGc9Hd&hc_ref=ARQrDRaZH4Nupp1IvFEhnQHjdKhdFk4WPiN8thzNByIt5DE50Zd7h4x6U0PA2ihI0Os&fref=nf&__xts__[0]=68.ARCetw-wObGX2O9pzIVarh_K-W4lK76OkuOC3HdNY_IHb4S4cT7L8wtQFWlY6y9wocOqfwgLPZEqp6Suw2K8fButMKrCk2pCz4gN5_EpUMVQcV7XArIdnbf1V1YeuTJTjxHgIKmal8AnM1qK7HKEZC9ekEIIrp71-ngCtGyamk_gHHseE7lbrOmMtEuvpPwDF9tSr0SD3cUeub8SerJ73YAf41TlttLwvDwIAkvzbx3ViL0jpNsxoX6iB3gvDq6sflFqiBEaob0xM_vdKS-X9YIqgT-0DUZDK0tmmDhkJNJiACePPjkwBpmtx5A0rOAY93-Sc9fx0Ac2ED-c9riYCJQ


Foto: @flashit

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