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  • Eduardo Rosal

UMA VISTA PARA A MULTIDÃO

[06.04.20]



A vida é um estar solitário com vista para a multidão. Nosso corpo é uma casa que se desloca no espaço. Nossas janelas são sempre um rascunho para a convivência; um rascunho refeito a cada golpe do que chamamos realidade ‒ essa visita que chega sem convite, entra, senta na nossa mesa e bebe do nosso copo, ri da nossa ingenuidade e não traz mensagem alguma além daquela que o momento quer mostrar.


Viver junto não acaba nunca, porque é sempre o último, o atual e o próximo instante, porque estamos sempre aprendendo a sermos nós mesmos, múltiplos e desencontrados, porque não somos senão a constante mudança. Uns atentam mais à busca; outros, menos. Mas o fato é que, querendo ou não, ensaiamos nosso próximo passo, como a criança que, aprendendo a andar, tateia e se apoia em tudo ao redor para se manter de pé, sem saber que o equilíbrio está no próprio umbigo. Rompido o cordão que nos unia à mãe, o que compartilhamos é só a nossa maneira de ver, um fluxo contínuo ao outro, um fluxo que muita gente insiste em estancar, como se fosse possível segurar o tempo sem a mão amiga do fracasso (como faz a arte).


É abraçado ao erro que utilizo as palavras “sempre” e “nunca”. Por isso digo que o que corre dentro não para nunca de chegar ao próximo. Só se pode ver por intermédio do outro, ainda que o enxergar seja um gesto de coragem solitária. Enxergar é sempre de dentro para fora. O contrário é não viver o próprio esforço de ser só um braço aberto para a multidão de dentro e de fora.

Eduardo Rosal




Fonte: https://www.facebook.com/Eduardo-Rosal-Escritor-108720470759417/


Foto: Eduardo Rosal, em Porto (Portugal), 2017.

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