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  • Eduardo Rosal

VELHO PENSADOR ANGOLANO

[15.04.20]



Muitos textos nascem de coincidências, constatações ou acontecimentos banais. Vejam o caso desta crônica cuja ideia me veio ao olhar de relance para uma tatuagem que tenho na perna. Então a imagem, tão bem pensada e afetivamente consagrada em minha pele, me fez um convite. Lembrei-me pela primeira vez de um ensaio (bem ao estilo de Montaigne) que escrevi quase uma década atrás. Esse ensaio tinha como mote o espanto que tive ao ler uma frase de Paul Valery (“Raramente me perco de vista”), a tal ponto de considerá-la digna de uma tatuagem.


Comecei então a escrever o ensaio sobre essa frase-tatuagem que nunca fiz, já adianto ao leitor. No entanto, nesse mesmo ensaio me vi conjecturando sobre outras possíveis imagens que eu poderia, um dia, vir a transformar em tatuagem. Mas o fato é que àquela altura não me ocorria a mínima intenção de tatuar o que quer que fosse. E assim segui por alguns anos, até ser tomado pelo segundo espanto que motivou esta crônica: a imagem tatuada em minha perna é exatamente a que, no tal ensaio, supus que um dia faria. Só agora constato.


Não dei por esse percurso que começou com um texto e que se realizou, muitos anos depois, em minha pele. Esse cálculo ficou perdido no caminho. Está claro, então, que a ideia de uma tatuagem me chegou primeiro pela escrita… e só depois chegou ao corpo. Uma autobiografia às avessas. Primeiro a imaginação da experiência, depois o fato. Em muitas ocasiões, minha escrita se antecipa a mim mesmo. Meu texto vislumbra o que só depois farei. A escrita me ensina e me mostra caminhos. Primeiro o escritor em mim vê, só depois eu vejo. O que quero dizer é que muitas vezes sou posterior ao que escrevo, não o contrário.

Enfim, fiz a tatuagem: um velho pensador angolano. Uma imagem, como tudo a que me proponho, bastante peculiar. Nunca fui a Angola, infelizmente. Mas meu pai foi, a trabalho. Passou seis meses e quase morreu de malária. À época eu ainda era criança. Não entendia o que era um ensaio, uma tatuagem, nem as consequências da colonização e da guerra em Angola, mas entendia o que era um pai e uma saudade. Meu pai voltou trazendo muitas imagens, inclusive uma escultura do tal velho pensador angolano, uma figura de forte simbolismo para o povo angolano.


Desde então carrego esse pedaço de Angola dentro de mim, como um sentimento profundo por algo que só pude ver pelos olhos do meu pai e como símbolo do retorno de Ulisses (não o de Ítaca, mas o Ulisses Rosal, meu pai). O que vi através dele continua ecoando em meus futuros gestos. Assim, o que antes eu carregava dentro de mim, agora trago tatuado em minha perna: “Escritura à flor da pele”, como intitulei o tal ensaio.


À época, entreguei o texto para Beatriz Resende, professora da UFRJ. Ela, então, sugeriu que eu o publicasse. Não sei por que resisti. Sentia que o texto ainda não estava pronto. Até hoje não o publiquei, mas compreendo o que faltava. Faltava marcar na pele aquela imagem. Essa mesma imagem que tatuei também no poema “Chegada de África”, do meu livro de estreia, “O sol vinha descalço”, publicado em 2016, também anterior ao pensador angolano que hoje, sim, anda em minha perna; um poema dedicado ao retorno do meu pai.


Uma imagem, quando verdadeira, não cessa nunca de chegar.

Eduardo Rosal




Fonte:

https://www.facebook.com/Eduardo-Rosal-Escritor-108720470759417/?epa=SEARCH_BOX



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